UMA VIAGEM PELO MUNDO DA ESPIONAGEMCom lançamento mês passado do filme Trama Internacional (The International – EUA/Inglaterra/Alemanha - 2009), dirigido por Tom Tikwer, o mesmo diretor de Corra Lola, Corra e O Perfume – A História de Um Assassino, cabe fazermos um breve retrospecto do cinema de espionagem.
Assim como a Segunda Guerra Mundial gerou para o cinema uma infinidade de filmes tendo os nazistas como vilões, a Guerra Fria entre Estados Unidos e União Soviética (atual Rússia), ajudou a criar o que conhecemos hoje como “filme de espionagem”.
Esse tipo filme tem um formato próprio, que, apesar de guardar semelhanças com os filmes de ação e de suspense, destaca-se por conta de alguns elementos bem específicos: tramas intricadas e cheias de reviravoltas, locações em diferentes partes do mundo, um agente/herói que luta quase sempre sozinho contra o inimigo e, este inimigo costuma representar, invariavelmente, uma ameaça global.
Se analisarmos a produção cinematográfica dos anos 1940, encontraremos em O Terceiro Homem, de 1949, filme dirigido por Carol Reed, estrelado por Orson Welles e com roteiro de Graham Greene, um dos primeiros exemplares do gênero. Da mesma forma, dois filmes de Alfred Hitchcock realizados nos anos 1950 também são ilustrativos desse gênero em formação: O Homem Que Sabia Demais, de 1956 e, principalmente, Intriga Internacional, de 1959.
Ao longo da década de 50 do século passado, o cinema americano utilizou a tensão provocada pela Guerra Fria em filmes de ficção-científica que, através de metáforas, transformavam a “ameaça comunista” em “invasão alienígena”.
O cinema de espionagem como nós o conhecemos hoje surge no início dos anos 1960, mais precisamente em 1962, com o lançamento de dois filmes: Sob o Domínio do Mal, de John Frankenheimer e o primeiro filme de James Bond, 007 Contra o Satânico Dr. No, de Terence Young.
Criado pelo escritor Ian Fleming, James Bond é um agente do Serviço Secreto britânico e o “00” antes do número “7” indica que ele tem licença para matar. A personagem foi interpretada no cinema por sete atores: Sean Connery, George Lanzeby, David Niven (em uma comédia que não é considerada parte da cronologia oficial), Roger Moore, Timothy Dalton, Pierce Brosnan e Daniel Craig.
Outro filme importante dos primeiros anos do gênero é O Espião Que Saiu do Frio, de Martin Ritt, realizado em 1965 e baseado em um livro de John Le Carré, um escritor que teve quase todos seus livros de espionagem adaptados para o cinema, da mesma forma que outros autores como Graham Greene, Frederick Forsythe, James Grady, Robert Ludlum e Tom Clancy. Principalmente durante os anos de 1970 e a primeira metade dos anos 1980, em filmes como: O Dia do Chacal (1973 – Fred Zinnemann), O Dossiê Odessa (1974 – Ronald Neame), Três Dias do Condor (1975 – Sydney Pollack) e O Documento Holcroft (1985 – John Frankenheimer).
Com o fim da Guerra Fria 20 anos atrás, Hollywood perde seu principal vilão e o gênero perde o rumo. Alguns poucos filmes são produzidos, mas, não empolgam como antigamente. Três exemplos: Três exemplos: Em 1990, A Casa da Rússia, de Fred Schepisi com Sean Connery e Michele Pfeiffer no elenco; ainda no mesmo ano, Caçada ao Outubro Vermelho, de John McTiernan com Sean Connery e Alec Baldwin; e em 1991, Companhia de Assassinos, com direção de Nicholas Meyer estrelado por Gene Hackman e Mikhail Baryshnikov.
Em todos eles temos novamente agentes da CIA, da KGB e de outras siglas em ação. Os elementos clássicos do gênero ainda estavam presentes, mas, o mundo havia mudado e a situação perdura por toda a década de 1990.
Em 2001 são lançados dois filmes que conseguem chamar novamente a atenção para o gênero: O Alfaiate do Panamá, de John Boorman - estrelado por Pierce Brosnan e Geoffrey Rush e Jogo de Espiões, de Tony Scott, com Robert Redford e Brad Pitt. Mas é somente a partir de 2002, com o lançamento de A Identidade Bourne, dirigido por Doug Liman, estrelado por Matt Damon e com roteiro de Tony Gilroy (inspirado na personagem criada por Robert Ludlum) que o gênero se reinventa.
Jason Bourne é um agente secreto desmemoriado que luta contra todos que aparecem em sua frente e tem um único objetivo: descobrir quem ele é realmente. Apesar de o primeiro filme da trilogia Bourne ser muito bom, o mais interessante é que é a partir do segundo, A Supremacia Bourne, de 2004, e principalmente do terceiro, O Ultimato Bourne, de 2007, ambos dirigidos por Paul Greengrass, que o cinema de espionagem ganha um novo fôlego definitivo.
Em 2005, o brasileiro Fernando Meirelles (Cidade de Deus e Ensaio Sobre a Cegueira) recusa um convite para dirigir um filme do agente 007 e aceita ir para a África realizar O Jardineiro Fiel, adaptação de mais um livro de John Le Carré e que tem como vilões a indústria farmacêutica e os governos do Quênia e da Inglaterra.
O próprio James Bond, por influência do novo ritmo imposto pelos filmes da trilogia Bourne, foi inteiramente repaginado em Cassino Royale, de 2006, dirigido por Martin Campbell e que marcou a estréia de Daniel Craig na pele de 007.
Chegamos então ao presente e ao novo trabalho de Tom Tykwer, Trama Internacional. O inimigo agora é um grande banco, o BCCI, que estaria por trás de operações ilegais envolvendo a compra de armas. O agente da Interpol Louis Sallinger, vivido por Clive Owen (que por sinal esteve recentemente em um outro filme, Duplicidade, que “brinca” com os clichês dos filmes de espionagem) é um obcecado em desmascarar as operações do banco. Ele conta com a ajuda de uma promotora americana, Eleanor Whitman, papel de Naomi Watts.
Os elementos tradicionais do gênero estão presentes em Trama Internacional. A ação começa em Berlim, depois passa por Nova York, Lyon, Luxemburgo e termina em Istambul. É possível perceber no filme de Tykwer influências hitchcockianas, porém, a principal delas vem da trilogia Bourne.
O filme alterna seqüências de muita ação e suspense com momentos mais introspectivos. São respiros narrativos que muitas vezes fazem com que o filme pareça ter duas linhas narrativas distintas, que, separadamente são convincentes, porém, no conjunto, às vezes não se entendem. E o final, anticlimático, espelha bem os humores de nosso mundo atual.
Mas Trama Internacional será realmente lembrado por conta da eletrizante seqüência no Museu Guggenheim, onde Sallinger, no encalço de um informante do BCCI, termina por enfrentar um grupo de assassinos fortemente armados que, após um longo tiroteio, terminam por destruir o interior do museu. Antes que alguém pergunte se o Guggenheim de Nova York foi realmente “destruído” para a cena, convém avisar que o vão central do museu foi inteiramente recriado em estúdio.